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A morte da obra

Publicado 05/10/2017

Eu sou um implicante. Faz parte do meu DNA. Muitos me veem como ressentido. Não deixa de ser verdade. Mas é mentira. Paradoxo. Já defendi o direito ao ressentimento. Nos anos 1960, cheios de verve e de fórmulas, os franceses inventaram a morte do autor. Era uma história interessante sobre a autonomia da obra em relação ao seu autor e também sobre a originalidade da escrita. O autor da morte do autor, ou assassino, foi Roland Barthes, uma vaca sagrada da época.

Ele disse: “A escrita é destruição de toda a voz, de toda a origem. A escrita é esse neutro, esse compósito, esse oblíquo para onde foge o nosso sujeito, o preto-e-branco aonde vem perder-se toda a identidade, a começar precisamente pela do corpo que escreve”. Tradução: o autor copia, transforma, reforma e conforma. Colocado o ponto final, a obra vive, o autor morre. Barthes disparou mais uma bala: “Sem dúvida que foi sempre assim: desde o momento em que um fato é contado, para fins intransitivos, e não para agir diretamente sobre o real, quer dizer, finalmente fora de qualquer função que não seja o próprio exercício do símbolo, produz-se este desfasamento, a voz perde a sua origem, o autor entra na sua própria morte, a escrita começa”.

Bonita conversa. Muito cabeça. Não é mais assim.

Leio os jornais e vejo os programas de entrevistas. Só aparecem autores sem obras. O autor vive. A obra morreu ou nunca existiu. Não citarei nomes para não mexer com mortos-vivos. Direi apenas que uns 90% dos autores em voga não têm obra. Muito menos significativa. No máximo, colocou-se o nome na capa de algum material impresso para vender em palestras. O jornalismo se ilude com a espuma das coisas e constantemente inverte hierarquias. Como disse Pierre Bourdieu, jornalistas tomam o banal por extraordinário e extraordinário por banal. É um problema de óculos.

Barthes queria dissipar ilusões: “Supõe-se que o Autor alimenta o livro, quer dizer que existe antes dele, pensa, sofre, vive com ele; tem com ele a mesma relação de antecedência que um pai mantém com o seu filho”. Se não era assim quando escreveu, menos ainda agora. Nestes tempos de morte da obra, o autor não alimenta a criatura, que vem depois dele. Não sofre por ela, não vive com ela, não a ama, não a trata como um pai. Aproveita-se dela. A obra é apenas uma simulação, um produto derivado, um complemento, um suplemento, um plus. Quem tem obra no Brasil? Raríssimos. Em geral, fora da mídia. Um caso típico de autor sem obra é o dos palestrantes profissionais que faturam alto chupando citações dos gregos e vendendo autoajuda intelectual em eventos corporativos. Darcy Ribeiro tinha obra.

Roberto DaMatta tem obra.

Obra implica originalidade mesmo quando se transforma o que já foi publicado.

O francês Thomas Piketty, que esteve Porto Alegre na semana passada, tem obra.

Tivemos um embate neste ano no Fronteiras do Pensamento: Gilles Lipovetsky, que tem obra, contra Eduardo Gianetti da Fonseca (cite uma obra sem olhar no google). A mídia deu vitória ao brasileiro.

A obra sempre perde. Não fala a linguagem do espetáculo.

Viva o autor. A obra morreu. Só incomodava.  Exigia leitura.

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Fonte: Juremir Machado da Silva - Correio do Povo

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